77 ANOS DE ALCEU VALENÇA: PELA MEMÓRIA DA PSICODELIA VALENCIANA! - Falando com Autoridade
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01 julho 2023

77 ANOS DE ALCEU VALENÇA: PELA MEMÓRIA DA PSICODELIA VALENCIANA!


Por Eduardo Duarte

Hoje é aniversário de Alceu Valença, um artista muito maior que qualquer adequação necessária aos estereótipos dos gêneros musicais. Sua obra é capaz de absorver não só a universalidade musical como também um apurado lirismo para tratar assuntos variados - da flor ao espinho.

Muito conhecido e, em dada medida, resgatado pelo seu dócil romantismo inerente a músicas de grande repercussão, como Anunciação, La Belle de Jour, Girassol e outras, Alceu tem um traço muito importante, embora menos realçado, que é a sua psicodelia escancaradamente brasileira, temperada pela essência das suas raízes nordestinas. 

A fértil década de 70 tem, na janela do seu tempo, o brilho solar da musicalidade "Valenciana" - tão própria que necessita ser um adjetivo de si mesma. Nesse período, sua música atingiu o cume de uma produção que um artista pode ter, com um experimentalismo encharcado de nordeste e antropofagicamente alimentado - por osmose, diga-se de passagem - pelo avassalador Rock and Roll. Tudo muito próprio e muito natural, de tal forma que o invólucro tropicalista da música brasileira foi rompido por algo ainda mais ousado e "inclassificável" na composição e execução de "Vou danado pra Catende", uma canção de Alceu Valença com colagens sobre a poesia de Ascenso Ferreira, que ganhou o Prêmio de Pesquisa no Festival Abertura - categoria de premiação criada especificamente por causa de e para essa canção.

Sua discografia, iniciada com Geraldo Azevedo a partir do "Quadrofônico", de 1972, mostra uma criatividade e uma inquietação que ressoaram em outros grandes discos solos, como Molhado de Suor, Vivo! e Espelho Cristalino. Evidentemente, sempre acompanhado por uma riquíssima turma nordestina, composta por nomes como Zé Ramalho, Lula Côrtes e Paulo Rafael - membro falecido do grupo psicodélico Ave Sangria e eterno parceiro e amigo de Alceu.

Posteriormente, a obra de Alceu foi maturada em polimentos que escolheram o que permaneceria de mais comportado do experimentalismo e de mais belo do chamado pop, mas sempre alicerçado na cultura nordestina, fecundada, por sua vez, pela cultura mourisca. 

O que foi feito posterior às aventuras psicodélicas exuberantes de Alceu Valença é um tesouro da Música Popular Brasileira, sem sombra de dúvidas, mas é muito importante realçarmos, também, a genialidade primeva que arquitetou a estrutura de toda a sua obra, num misto de regionalismo, inventividade e psicodelia, que resultaram numa musicalidade ímpar na história da música universal, podendo ser descrita pelos versos dele mesmo: "Eu só acredito em vento que assanha a cabeleira, quebra portas e vidraças e derruba prateleiras". 

Viva Alceu Valença!

Eduardo Duarte, ativista cultural e estudante de história.

2 comentários:

  1. Leitura agradável do texto genial produzido por essa mente inquieta e brilhante. Grato, Eduardo Duarte, por suas análises tão profundas e, ao mesmo tempo, acessíveis ao leigo apreciador de música.

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  2. Quanta informação importante neste texto tecido com muita força poética. Tão bom ser lembrado, com a qualidade da escrita de Eduardo Duarte, deste Alceu mais psicodélico dos tempos iniciais. Maravilha saber que Alceu transita deste o vento que assanha a cabeleira até à bruma leve das paixões que vêm de dentro. Parabéns pelo texto, Eduardo Duarte

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